sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Clima: 62 anos do Nevoeiro de Londres

Olás...


E lá estão, ricos e pobres, de novo, discutindo sobre (des)acordo climático global. São tantas reuniões realizadas,  que já era tempo para terem resolvido todos os problemas do Planeta.

Desta vez é a Conferência Climática das Nações Unidas, a COP 20, que acontece em Lima, no Peru. Exatamente hoje, dia 05/12, a COP entra em seu quinto dia, sem que a prévia do rascunho do tal novo acordo climático global tenha sido apresentado aos países.

E foi há exatos 62 anos, nesta data, entre 5 e 9/12/1952, que ocorreu  O Nevoreiro de 1952,   conhecido também como Big Smoke. Período de severa poluição atmosférica, que encobriu a cidade de Londres, o fenômeno foi considerado como um dos piores impactos ambientais até então, sendo causado pelo crescimento incontrolado da queima de combustíveis fósseis na indústria e nos transportes. Acredita-se que o nevoeiro tenha causado a morte de 12.000 londrinos, e deixado outros 100.000 doentes.
E, desde lá, podemos afirmar que avançamos? Sim. Podemos dizer que esforços conjuntos têm sido envidados para que essas tragédias não se repitam.

Mas não têm sido suficientes.

Há pouco tempo,  conforme matéria "A propósito de «A vida na Terra por um Fio», um ponto de vista da Amazónia - Chama a Mamãe " representantes dos governos também estavam reunidos para discutir sobre o clima no mundo.
Agora, no Peru, os mesmos discursos – que não correspondem à prática – estão sendo repetidos. Senão, vejamos  o que disse o negociador-chefe do Brasil, o embaixador José Antônio Marcondes de Carvalho, ao se referir às discussões dentro da Plataforma de Durban, instrumento diplomático criado dentro da convenção da ONU que permite criar um tratado para o clima. Segundo ele, ocorrem “de forma efetiva e se encaminham para alcançarem um resultado”. “O que estamos fazendo é uma varredura total de todos os temas para vermos o que dará para fazer. Hoje [quinta] não temos um texto ainda. Mas esse é o objetivo da conferência, terminar com um texto”.

Juro que já li e ouvi esse discurso, antes!

Os debates em Lima são considerados importantes por diplomatas e cientistas por ser a última chance de costurar um plano que obrigará os países a cortar emissões de gases-estufa antes de sua aprovação, em 2015. Sua entrada em vigor está prevista para 2020.

A presença massiva desses gases na atmosfera acelera o aumento da temperatura do planeta e causa as mudanças climáticas, como uma maior quantidade de chuvas, enchentes, seca, além do degelo das calotas polares, sobretudo no Ártico. Cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima, o IPCC, atestam que essas alterações já ocorrem e se agravam.

Pronto. Até parece que descobriram a pólvora! São assuntos – e com respostas recorrentes da Natureza – que conhecemos – no mundo – tão bem.

As grandes potências, boa parte obrigada a reduzir as emissões desde que o Protocolo de Kyoto – único tratado resultante desta convenção – foi criado, em 1997, alegam que importantes nações em desenvolvimento (Brasil, China, Índia e África do Sul) têm que seguir regras rígidas para diminuir o envio de gases à atmosfera.

O famoso “empurra, empurra”, e egos em questão.

O embate se dá porque o bloco “mais pobre”, em tese, não quer frear seu desenvolvimento e cortar bruscamente as emissões, o que é exigido pelo bloco “mais rico”.
Uma proposta do governo brasileiro que esfria os ânimos nessa discussão, tornando-a mais dinâmica e mantendo a responsabilidade histórica das emissões, foi aceita pelos diplomatas e deve ser inserida no rascunho do novo acordo.

Mas até onde podemos acreditar que essa proposta será colocada em prática, se até mesmo quem faz a proposta não enxerga para o seu umbigo?

“Há muito interesse dos países e o fato do próprio presidente da COP [o ministro do Meio Ambiente do Peru, Manuel Pulgar Vidal] ter requisitado uma apresentação nossa é uma demonstração de que as coisas estão tomando corpo. É uma forma de melhorar o regime de implementação”, explica o embaixador.

Mas tomando corpo é o que mesmo?

“Ela [a proposta] pode acalmar os ânimos, porque muitos países desenvolvidos se dão conta que [o mecanismo] tende a ser justamente o fio condutor dessa nova posição da negociação, com aumento de ambição e superando a questão de autodiferenciação, que milita contra o objetivo do acordo”, complementa... mas não disse nada com nada!

Outro tema em discussão na COP 20 é sobre o que os países inseridos no Protocolo de Kyoto vão fazer para reduzir suas emissões até 2020, durante o segundo período de vigência deste tratado obrigatório. Chamado de segundo trilho das negociações, ele ainda não teve grandes avanços durante a cúpula peruana.

Novidade? Nenhuma.

Nos próximos dias, as discussões vão aumentar de ritmo com a chegada dos ministros para o Segmento de Alto Nível, que terá início na próxima terça-feira (9). O acordo final precisa ser aprovado e assinado na Conferência do Clima de Paris, a COP 21, no ano que vem.

Uau! Eu também quero discutir esse assunto em Paris, bancada com o dinheiro dos contribuintes, falar bla bla bla... e depois explicar que estamos avançando nesse aspecto.

Vele a pena a transcrição:

Em dezembro de 1952, uma frente fria chegou a Londres e fez com que as pessoas queimassem mais carvão que o usual no inverno. O aumento na poluição do ar foi agravado por uma inversão térmica, causada pela densa massa de ar frio. O acúmulo de poluentes foi crescente, especialmente de fumaça e partículas do carvão que era queimado.

Devido aos problemas econômicos no pós-guerra, o carvão de melhor qualidade para o aquecimento havia sido exportado. Como resultado, os londrinos usaram o carvão de baixa qualidade, rico em enxofre, o que agravou muito o problema.

O nevoeiro resultante, uma mistura de névoa natural com muita fumaça negra, tornou-se muito denso, chegando a impossibilitar o trânsito de automóveis nas ruas. Muitas sessões de filmes e concertos foram canceladas, uma vez que a plateia não podia ver o palco ou a tela, pois a fumaça invadiu facilmente os ambientes fechados."

Fontes, com adaptações:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Nevoeiro_de_1952

Mamãe Coruja

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Metade em mim...

Olás...



... Impressão minha, ou metade de ti está em mim?



Um dos (grandes) amores da minha vida.

Maíra Luísa,
Teu nome traduz,
Amor de menina,
Criança feliz.


Metades... juntas.


Mamãe Coruja

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Traços marcantes


Olás...


Algumas vezes, num lampejo, 
Mais jovem, nela, me vejo.

Ela sabe que terá meus traços,
Tempos à frente.
Eu, trago-os, da minha mãe,
Tempos atrás.

Desses semblantes queridos,
Não os esquecemos. 
Jamais!





Mamãe Coruja

domingo, 30 de novembro de 2014

A Chacina dos Periquitos

Olás...

Com muita vergonha, uso este espaço para demonstrar toda a minha tristeza em saber, que o ser, chamado de racional, o Homem, é capaz de atos tão monstruosos, como esse.
Vergonha, porque em uma Região, cujo metro quadrado, é tido como o de maior biodiversidade do mundo, acontece uma "chacina" dessas.

Estou com o coração em luto. Espero que as autoridades locais e os órgãos que são criados para proteger a fauna brasileira, dessa vez possam fazer algo.

Não sou do tipo que esconde debaixo do tapete as coisas ruins da cidade na qual moro, e mostrar somente as maravilhas, como se fosse um  mundo do faz de conta.

Aqui está a capacidade do Homem em destruir a beleza. Em tornar mórbido o que é  belo. 

Lamentável.

Eu,  que amo o canto de qualquer pássaro - todos os dias tenho esse privilégio, seja no ambiente do trabalho, ou em casa - fiquei chocada com o episódio.

Pensei: Quantas pessoas, com deficiência áudio-visual, não dariam tudo para ouvir o canto de um pássaro? Quantas?

E vejam o que acontece:

http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2014/11/telas-em-arvores-no-am-contribuem-para-morte-de-periquitos-diz-biologo.html

Sem mais palavras.

Mamãe Coruja

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Os negros dos EUA



 Olás...

Pois bem. Se o que acontece nos EUA fosse mais um caso no Brasil, o mundo certamente estaria em polvorosa. Mas sendo o ocorrido em uma potência mundial, tudo - parece - tem explicação. 

Os jornais noticiaram, em todos os meios de comunicação, que os EUA enfrentaram uma segunda noite de protestos e violências, com centenas de pessoas se manifestando, em diferentes cidades - Nova York também -   contra a morte do jovem Michael Brown, que foi assassinado pela Polícia, em agosto passado, no Estado do Missouri, na cidade de Ferguson, onde os atos estão sendo mais violentos. Nessa última noite, houve uma intervenção maior, por parte da Força Nacional, impedindo, por exemplo, os saques e que colocassem fogo em carros. 

Mas as manifestações continuam, desde que o policial, que é o autor dos disparos, que matou o jovem negro Michael Brown, acabou inocentado, ou seja, o inquérito não seguiu em frente e isso vem causando a série de manifestações. 

Em um país que inspirou as políticas afirmativas e elegeu um presidente negro, esperava-se avanço nesse debate, mas ainda são questões muito mal resolvidas nos EUA.

Talvez a gente aqui, vendo de fora, pudesse achar que houve avanços, mas quem está lá, deve ver o mundo do jeito que ele é, e parece que ele é diferente. A própria declaração que  Obama deu ontem, mostra que é diferente. Ele diz que “as frustrações que temos visto não são sobre o incidente particular. Elas têm raízes profundas em muitas comunidades negras, que sentem que nossas leis nem sempre são aplicadas de modo uniforme ou suficiente”. 

Então, O Presidente da República, sendo ele negro ou não,  está dizendo que há uma justiça para negros e outra pra quem não é negro. Isso mostra que lá é um caldeirão de fogo,  essa questão. Os EUA foram, talvez, líderes nessas políticas afirmativas, mas está provado que não resolveu e a questão é muito mais profunda do que essa suposta injustiça com o policial.

Ele não foi nem inocente. O Júri considerou que não havia indícios suficientes para levá-lo a julgamento. Então, nem foi resolvido se ele era inocente ou culpado, não tinha de ser julgado (o que chamamos no Brasil de fase da pronúncia). Não foi nem acusado, na verdade. 

É um país que ainda não resolveu essa questão. E,  de vez em quando, o mundo se surpreende com um exemplo como esses. No entanto,  quem por lá mora, principalmente os negros americanos, veem isso no dia a dia. 

Talvez tenha um dado também a mais, nessa questão, que transforme o fato em fato americano, em uma  tragédia americana.  Li, em um jornal, acerca da declaração de uma advogada, dizendo que a policia nos EUA tem um status especial, desde o 11 de setembro, porque a segurança foi ampliada de toda maneira possível, criando a percepção de que a polícia é a última linha de defesa entre trabalhadores e criminosos. Portanto,  existiria uma tendência de júris, como esse que absolveu  o policial, a ser condescendente com os policiais, que é uma tendência que vem desde 11/09. Então,  essa questão não está resolvida e nem vai ser resolvida tão cedo, se chega ao ponto que chegou agora, é porque vai demorar muito para resolver a questão racial nos EUA.


Há alguns dias, também outro caso, de um menino que estava com uma arma de brinquedo na mão, um menino negro, e que também acabou sendo baleando, atingido por  outro policial, o que só mostra que há uma sequência de casos e que não é um fato isolado, que está em debate nos EUA. Envolve várias forças, de um lado, a população da cidade é 70% negra, então tem esse conflito que é antigo; por outro lado tem uma situação de segurança que já não é racial, tem a ver com terrorismo, com o 11 de setembro, que é o fortalecimento da polícia na questão da segurança. 

Quando esse policial não foi levado a julgamento, foi considerado não quem errou, mas quem iniciou o processo, e quem iniciou o processo foi a Polícia, não o policial. O policial, individualmente, seguiu uma lei, uma regra, que poderia ter atirado na condição que se encontrava. O erro não seria do policial, e sim da Polícia. Mas isso não é claro no que o Júri  diz. Apenas diz que o policial teria direito de defender naquela situação que ele se encontrava. 

Então, é bastante complicado. É um barril de pólvora,  porque são forças opostas muito fortes. A Polícia é muito forte, tem crescido, tem se fortalecido, com o que virou uma certa paranoia. Tem sentido objetivo e claro? Ninguém duvida disso, mas  vai tomando uma dimensão, de uma certa maneira, com o medo do terrorismo, que ele extrapola, vai além daquilo que ele deveria  ter ido.  

As políticas afirmativas, na verdade, fortalecem os negros. E isso é muito bom, não restam dúvidas. Mas não diminuem a segregação. Pelo contrário,  aumentam.

Vejam, uma cidade como essa do episódio, com 70% de negros, mas os negros não têm direitos iguais aos brancos.


Embora existam especialistas e as chamadas ações de inteligência envolvidas nesse aparato, na minha modesta opinião, as políticas afirmativas têm que ter um tempo, elas têm que parar. E a gente não tem que se centrar nisso. E sim centrar numa situação que é criar condições iguais para todo mundo. Mudar o pensamento. É isso que a gente tem que mudar. Mudar o conceito e o valor. 

A gente deveria investir – eu digo "a gente" falando dos EUA,  mas a gente vive isso também no Brasil. Deveríamos investir numa mudança de consciência e percepção. Não adianta objetivamente ir lá e fortalecer essa ou aquela população. 

O que a gente ver nos EUA? Um presidente negro e uma situação em relação aos negros igual ao que era, talvez tenda até a pior.


Outro  exemplo, que também me preocupa: quando a gente faz uma política afirmativa para minorias, para todas as minorias, infelizmente aumenta a criminalidade. 

Não adiantam apenas políticas afirmativas. É preciso mudar a consciência. Do que estou falando?  Falo da homofobia, por exemplo,  no Brasil  acontece isso. Então, quanto mais atos sobre tolerância à homofobia acontecem, tem aumentado os crimes  contra homofobia, acontecendo nas ruas.

Enfim, política afirmativa para negros, homossexuais ou qualquer classe desprivilegiada é necessária, mas é preciso que junto a isso venha uma mudança de consciência, senão não adianta nada. O  que estamos vendo nos EUA é a prova disso.


Mamãe Coruja



domingo, 23 de novembro de 2014

Amores da minha vida

Olás...

Genética explica como são os genes e como eles trabalham. Isso cientificamente comprovado está!

O que explica, porém,  alguns sentimentos que sentimos ao longo de nossas vidas e, para algumas teorias, as quais respeito, vão  além da  vida? 

Ainda esses dias,  e quase diariamente, tão logo percebo um caso de abandono de filhos, de incapazes, eu me questiono: "Como alguém pode jogar um filho, recém-nascido, no lixo, no esgoto, em algum terreno baldio?"

Hipocrisias à parte, não gosto muito de julgar. Aprendi - com os erros da própria vida - que não tenho direito em fazer julgamentos, seja de qual ser humano for, sem ter conhecimento de causa.E, ainda, assim, me furto ao direito de julgar, e, sim, analisar, para daí tirar lições de vida.

Mas, num particular (porque em minhas inúmeras e indefinidas tentativas de justificativas para o ato de abandono de crianças, bebês ainda), não consigo encontrar explicações para quem assim age. Algumas,  até são analisadas sob a égide do Direito, como o infanticídio. Percebe-se,  porém, que os casos- e em números alarmantes de abandono de incapazes  - crescem, no Brasil.

Então, quando olho para essas "lindezas" em minha vida, e, a cada momento, desde que nasceram até este instante (gravado em minha mente e no meu coração), tenho a infinita certeza que não cometeria semelhante ato. Mas, reafirmo, não julgo os atos de ninguém. Só não consigo entender! 

Existem tantas pessoas numa fila imensa, à espera de adoção. Existem centenas de casais à espera de uma oportunidade divina de serem pais... enquanto que...

Ter histórias boas para serem contadas, relembradas. Rir do nada, chorar do que foi preciso chorar, vê-los crescendo, tropeçando nos primeiros passos; levantando e novamente caindo; tropeçando mais tarde; e ainda assim damos colo, do mesmo jeitinho que, como criança, um dia passamos. Isso deve fazer falta a quem teve essa chance... e a jogou fora, no  lixo.


Amores da minha vida! 
Na Loja "Harmonia Nativa" - Shopping Ponta Negra - Manaus/Amazonas



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Onde está a Consciência... pesada?

Olás...

Dia 17  último, ouvi em uma Rádio, um discurso que acontecia no Senado da República, momento em que me dirigia ao trabalho. De início, o tema me prendeu, porque trazia à tona o assassinatos dos 43 estudantes, no México. Ouvi o discurso do início ao fim. Depois,  o resgatei da própria Rádio da qual o ouvira. 

Políticos, geralmente,  adoram discursar, falar bonito, e  o discurso quase sempre não "bate" com a prática. Muitas das vezes nem é o próprio político quem redige o discurso. Mas ali não me importou esse detalhe. Ative-me à questão, delicada, por sinal. Para mim, valia o chamamento.

Sendo hoje o Dia da Consciência Negra, quem sabe podemos também refletir acerca dos pontos mencionados no discurso!?

Eis a questão, ipisis literis: 

"No dia 26 de setembro, há menos de 2 meses, 43 estudantes mexicanos, alunos de uma escola de formação de professores de Ayotzinapa, foram sequestrados e assassinados por  policiais, acumpliciados por traficantes, na cidade de Iguala, no Estado de Guerrero. O desaparecimento e execução dos estudantes comoveram o Mundo, e, por mais de 1 mês, foram destaque do noticiário internacional. Até o Papa se pronunciou a respeito dessa barbaridade.

Na madrugada do dia 05 de novembro, depois de terem anunciado a razzia, pelas redes sociais, policiais militares paraenses varreram a periferia da cidade de Belém, em uma expedição de vingança, pela morte de um membro da Corporação, deixando um saldo de 10 a 35 mortos. Entre as vítimas do massacre estava o estudante Eduardo Galúcio Chaves, de 16 anos, que voltava da escola. Portador de necessidades especiais, assustou-se com os tiros, e, mesmo com dificuldade, Eduardo pôs-se a correr e foi abatido com 5 tiros pelas costas. 

Alguns dos executados no Pará, receberam mais de 30 tiros. 

Mesmo que a própria  Polícia Militar tenha apregoado a expedição, os assassinatos foram atribuídos à guerra entre traficantes, a mesma versão inicial para o desaparecimento dos normalistas mexicanos.

Parafraseando Caetano Veloso, Iguala é aqui! Com a diferença que as 10 ou 35 execuções, em Belém, não ganharam a repercussão, quer nacional, quer internacional das execuções mexicanas. 

Lá e cá, os massacres serão rapidamente esquecidos, enterrados com suas vítimas. Os massacres de ontem serão suplantados pelos massacres de hoje.

Um estudo, há pouco divulgado, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública,  ONG, que se dedica ao tema, revelou que nos últimos 5 anos, a Polícia brasileira matou, em média, 6 pessoas por dia. Entre 2009 e 2013, foram 11.197 mortes provocadas, oficialmente, pelos nossos "agentes da lei".

Nos EUA, nos últimos 30 anos, a Polícia matou 11.090 pessoas. Em 30 anos, 11.090 pessoas contra 11.197 mortes provocadas pelos nossos agentes da lei, entre 2009 e 2013. E olha, que segundo o Fórum, a letalidade de nossas polícias está caindo. Estas estatísticas, no entanto, ressalva a ONG, são imprecisas, já que apenas 11 das 27 unidades da Federação informaram os números pedidos pelo Fórum. E, mesmo assim, esses números não são informações confiáveis.

Afirma o Fórum: "A maioria das polícias do País, não tem a prática de fazer acompanhamento da letalidade policial. Há uma subnotificação. Sabemos que é bem maior do que está registrado". Uma pista, para comprovar esta subnotificação, calcula-se que, anualmente, 50 mil brasileiros morram assassinados. E, como no caso de Belém, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Salvador, os massacres serão sempre atribuídos a conflitos entre bandidos, ou a tal resistência seguida de morte, os famigerados autos de resistência. Uma excrescência, criada pela Ditadura, para massacrar as execuções, e que sobrevive até hoje.

Assim, como os 500 ou mais assassinatos havidos em São Paulo, em apenas dois dias, de maio/2006, jamais foram ou serão investigados, também os assassinatos de Belém, que permanecerão intocados, assim como os seus autores. Os 500 assassinatos em São Paulo ficaram por conta da guerra da Polícia Militar com o PCC. Um levantamento superficial, feito à época, mostrou que a maioria das vítimas era trabalhadores sem registros policiais.

Há um alarido danado nesta Casa e na Casa aqui ao lado, contra a corrupção. Compartilho com a inquietação, mas rejeito essa visão seletiva de parte do Congresso, do Ministério Público, do Judiciário e da mídia em relação à corrupção. Corrupção não é apenas o desvio de dinheiro público, propina, suborno, manipulação em licitações. É também corrupção a indiferença do Parlamento, do Executivo, do Judiciário, do Ministério Público, da Academia, das Igrejas e da mídia diante da violência, especialmente da violência dos agentes públicos. Da mesma forma que a impunidade do desvio do dinheiro público provocará mais corrupção, a impunidade da violência policial provocará mais violência, maior instabilidade social e perpetuação da injustiça.

Silvia Colombo, repórter especial da Folha de São Paulo, que se dedica especialmente a cobrir a América Latina – não sei se foi despedida pela Folha, também, está despedindo dezenas de jornalistas – mas fez Silvia Colombo uma ligação direta entre o massacre dos estudantes em Iguala, com o terrível massacre de centenas de estudantes na cidade do México, em 48, 46 anos atrás. O prefeito e os narcotraficantes de Iguala não queriam que os estudantes perturbassem um ato oficial.

O Presidente Diaz Ordaz não queria que os estudantes perturbassem as Olimpíadas, que o México sediava àquele ano. E a impunidade do massacre de 68 é a nutriz do massacre de 2014. A diferença entre uma carnificina e outra é que agora os mortos foram contados. Enquanto que, a sinistra contabilidade de 68 permanece, até hoje, inconcluso. O massacre mexicano de 46 anos atrás. Quer dizer, o México, 46 anos atrás, estava preparado para uma tragédia igual à de Iguala. Como o Brasil, depois das chacinas da Candelária, de Vigário Geral, do Carandiru, está preparado para a chacina de Belém, para a chacina de 2006, em SP, e para quantas mais se sucederem nessa terrível crônica de impunidade, de indiferença e de desprezo pelos mais pobres,  e pelos que estão à margem da sociedade dominante.

Não se trata, Senador Suplicy, apenas da banalização do mal, da vulgarização da violência, da mediocrização da vida. Trata-se, sim, da institucionalização do mal, da violência, e da institucionalização do desapreço à vida

É a reinvenção continuada da barbárie. 

O desdém em relação aos pobres, quase sempre pardos e negros, não se flagra apenas quando expedições oficiais punitivas agem nas periferias das cidades como capitães de mato na captura de escravos fugitivos.

Quase sempre, as catástrofes que vitimam os humilhados e ofendidos pela sociedade de classe, pouco comovem os do topo desta sociedade. 

Senhoras e Senhores Senadores, neste 2014,  registram-se os 30 anos de uma das piores tragédias do Séc. XX, no Brasil,  o incêndio da Vila Socó, favela sobre palafitas na cidade de Cubatão, em SP. Fazia tempo que os dutos da Petrobrás, que ligam a Refinaria Presidente Bernardes à Cubatão ao terminal da Alemoa, em Santos, estavam sem manutenção e vazando gasolina no mangue, onde as palafitas haviam sido erguidas. Na noite do dia 24 de fevereiro de 1984, uma falha operacional,  combinada com a corrosão dos dutos, provocaram o vazamento, de uma só vez, de 700 mil litros de gasolina no mangue. Alertada pelos moradores, a Refinaria informou, que primeiro precisava da avaliação de um engenheiro que morava em Santos, para acionar, ou não, os bombeiros.  Bastava uma faísca para a tragédia: o fósforo, o isqueiro, um curto circuito. 

Seja lá o que tenha sido, essa faísca provocou o fogo, que consumiu Vila Socó em poucos minutos. Como sempre, quando se trata de favelados, de pardos e negros, de trabalhadores e pobres, a contabilidade das vítimas, até hoje, não fechou. Assegura-se, que o número de mortos ultrapassou os 700, podendo chegar a mil, mais da metade crianças, 300 crianças de 0 a 3 anos; 245 crianças de 3 a 6 anos. Afora uma enorme quantidade de feridos. Entre os estertores do Regime Militar, e embora suspensa a censura, não houve empenho para investigação da calamidade e o balanço criterioso das vítimas. 

Afinal, o Haiti é aqui. E quem lá quer saber o que acontece no Haiti, na Vila Socó, no Capão Redondo, no Guamá, ou na Baixada, ou no Alemão? 

De vez em quando alguém se interessa. Noticiam os jornais, que semana passada a Defensoria Pública de São Paulo, fez um apelo urgente às Nações Unidades, para que investiguem o assassinato, no dia 7 de setembro, de 4 jovens, entre 16 e 21 anos, na favela São Remo, na Zona Oeste da capital paulista. Eles foram inequivocamente executados pela Polícia. O caso foi entregue a um Setor da ONU, que investiga execuções extrajudiciais.  

Será que desta vez teremos novidade? 

Não terá, com este apelo, a Defensoria Pública de São Paulo, confessado a sua absoluta inutilidade? Insubsistência? Não terá confessado sua nulidade e absoluta inoperância? Quando se dedicam desesperadamente às lutas salariais, aos acréscimos, aos absurdos, aos auxílios-residência e tudo o mais, à semelhança do conjunto do Judiciário e do Ministério Público. Isto realmente não é novidade.

Será, ou seja como for, será pouco o que fizeram. Sempre há de ser pouco, mesmo porque não é a punição fortuita de membros dos sinistros  esquadrões da morte, que agem impunemente no Brasil,   que mudará  a realidade dos fatos, a natureza verdadeira das coisas.

E qual é a natureza das coisas, no caso da violência policial, para-policial, civil ou social? Talvez pudéssemos simplificar e tão pura e simplesmente, endereçar tudo à conta das estruturas econômica e social  e,  redundantes na simplificação,  dizer que nada muda se essas estruturas não forem sacudidas, demolidas ou refeitas.

Talvez pudéssemos abrir aqui um parêntese e citar Marx ou Toynbee, que mesmo separados ideologicamente, pela distância da Terra à Lua, coincidem  quanto a obsolescência dos Sistemas, que sinais como esses, que diariamente explodem à nossa volta indicam, pressionam por um novo tempo, e que é da decadência irresistível do velho que deve nascer o novo?

Talvez, na mesma linha, me fosse permitido citar meu velho mestre, Guerreiro Ramos.

Talvez,  para entender porque as nossas Polícias executam 6 pessoas por dia (bem mais, muito mais, na verdade). Para saber as razões porque mais de 50 mil brasileiros são assassinados todo ano, e outros 50 mil são abatidos pelos acidentes de trânsito, e mais de 3 mil  morrem em acidentes de trabalho. Talvez seja o caso, talvez fosse o caso de dar uma olhada para trás, para nossa história, e com ela, Senador Cristovam, aprender alguma coisa. 

Olhar pelo retrovisor, perscrutar, examinar com atenção a busca de explicações, para nossa violência, para nossas mãos sujas de sangue, para nossa história, ela mesma empapada de sangue.

Para tentar descobrir porque somos um dos países mais sanguinários do Planeta Terra, mais até do que aqueles que vivem em permanente Guerra.  Cite-se que a Guerra da Síria, que mês que vem entra em seu 5º e sangrento ano, matou até agora, estima-se,  170 mil pessoas. Em cinco anos! Enquanto que a carnificina brasileira, nas periferias pobres das cidades e do campo, nas ruas e nas estradas, nas fábricas e construções, ceifa quase que a mesma quantidade de vidas, por ano.

Para aqueles que se chocam, repito a pergunta: somos ou não somos um País sanguinário, violento, em guerra com o povo? 

Somos ou não somos?

País cordial, Senador Suplicy? Ora bolas!

Não é possível, que insistamos nisso, mas parece que isso não interessa às nossas elites, Senador Cristovam. E nós somos a Elite! Somos as mulheres e os homens bons, os pais da Pátria, o escol, como se dizia antigamente. E, como tais, não temos nada a aprender com a história e com o passado. Não temos que nos ocupar em escavar o tempo à cata das origens do mal.

Neste momento, assoberbam-nos assuntos de maior importância, para que a morte violenta de mais de 100 mil brasileiros anualmente interrompam as nossas atividades. Mesmo porque esses 100 mil brasileiros, são  quase todos pretos de tão pobre, e pobres são pretos, e todos sabem como tratamos os pretos.

Termino aqui, esse pronunciamento, ciente de que minhas palavras vão se dissolver, desmanchar-se antes que cheguem ao plenário, às galerias, à tribuna de honra ou à bancada dos jornalistas, as ideias e os dados que aqui expedi.

Afinal, a oposição tem um presidente a derrubar. A situação, um presidente a sustentar. Os jornalistas? Estão excitadíssimos demais com tantas prisões e escândalos. Nesta azáfama, quem lá está se preocupando, se neste dezembro, contabilizaremos 100 mil brasileiros mortos violentamente.

Quase todos pretos, de tão pobres, e pobres são como pretos, e todos sabem como aqui tratamos os pretos. 

Alguém me ouvirá? 

Alguém os ouvirá?

Presidente, faço aqui o registro da minha indignação diante do que acontece no País, nesse momento. Nossa situação é igual, senão pior, do que a do México, com o assassinato dos 43 estudantes de Pedagogia, futuros professores, que emocionaram  e provocaram até uma reação do nosso excepcional  Papa João Francisco."   (grifos meus).

Eu ouvi. Quisera ter alguma  mágica para situações como essas não mais acontecerem.

Mamãe Coruja