Delineei meus traços em um papel,
Para enxergar o que havia naqueles rabiscos,
Marcados a esmo, num branco que me corrompe.
Percebi, naquele autorretrato,
As marcas do tempo, retratam.
Indisfarçadas com máscaras, cosméticos.
Vejo-me há alguns anos
Nos traços do papel
Encontro meus sonhos. Enganos.
Selfie à moda antiga.
Quando pintava-me de ti.
E tuas mãos, em mim, como um pincel.
De cerdas lisas e macias,
Nos teus lábios a tinta fresca,
Coloria-me a vida. Tudo em ti era cor.
Comparo o autorretrato de hoje,
Que retrata meus dias de ontem,
Ao agora, sozinha comigo, o amanhã.
Rabisco o que há em mim.
São leves toques. Sem maquiagem.
Camuflando as cores por onde irei.
Fito-me, naqueles traços descompromissados.
Não me esforço tanto.
Há vida! E acontece ... quando menos esperamos.
Preciso saber das minhas imperfeições,
Para eu ter mais certeza de mim.
E compor o meu calar com as minhas palavras.
Não adianta me esconder,
Porque as palavras sempre me encontram.
Elas não têm o cuidado em me esconder.
Sou o meu retrato quando coisa.
Por ser incompleta, sou rica. Abastada.
Sou outros, vivo o papel de muitos.
Mas sou, especialmente, o silêncio das palavras.
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Mamãe Coruja




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