quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Os pais influenciam a personalidade dos filhos?

Olás...


Nos últimos dias uma foto despertou em mim a ideia de escrever sobre assunto,  ainda tão instigante, sobre a construção da personalidade de cada indivíduo. Qual a influência da genética e do meio-ambiente na personalidade do indivíduo?Afinal, como “Mamãe Coruja”, qual a minha influência na personalidade dos meus filhos?

Li acerca de muitas teorias de filósofos, psicólogos, neurocientistas, geneticistas e até literatos. A ciência moderna tenta há séculos explicar sobre a intrincada malha que forma o nosso comportamento. É muito interessante  como eles sempre esbarraram em  dúvidas.

Mas compartilho com as premissas de alguns deles, como as de Sigmund Freud, ao afirmar que a influência dos pais na personalidade dos filhos é imprevisível. Sim, os pais são tidos como os agentes mais importantes na criação de uma pessoa. São os primeiros a conter o que há de animal em nós, nos ensinando a controlar desejos em nome de regras morais, castigos e convenções da civilização. Com essa premissa, Freud foi, ao lado de Darwin, um dos grandes pensadores do século XIX, a abalar a ideia de Deus, mostrando que as noções de pecado e culpa são transmitidas pelos pais e podem ser a causa de vários dos nossos problemas. Do conflito entre os nossos desejos e culpas, sairiam traços de personalidade (como a timidez, a vergonha), recalques inconscientes e fraquezas que nos acompanham vida afora. Freud vai mais longe: para ele, o jeito com que meninos e meninas lidam com a figura do pai e da mãe é essencial para definir a sexualidade da pessoa.

Até o ponto que a genética permite, um bebê recém-nascido é como um molde de argila flexível. Conforme interage com os adultos, a criança se molda ao mundo em que nasceu. O que ele aprender, ver, ouvir, sentir será armazenado no cérebro e irá compor a maneira como agirá no futuro. Ao nascer, vai demorar meses até conceber ideias básicas, como a de ser distinto das coisas ao redor. Aos poucos, porém, dar-se-á conta de que consegue mover algumas dessas coisas, seus braços e pernas, e que outros seres fazem o mesmo. Assim, a partir do outro, o bebê começa a ter a noção de eu, de que é um indivíduo. Daí a influência do meio em que vive ser um dos fatores que irá formar a sua personalidade, além dos traços genéticos, é claro.

Se os adultos ao redor forem lobos ou cavalos, passará a vida toda uivando ou relinchando e bebendo água com a língua (como aconteceu como o Selvagem de Aveyron, garoto encontrado na França em 1799, que viveu a infância isolado na floresta e, por volta dos 12 anos, trotava, farejando e se alimentado de raízes).

Entre lobos ou humanos, a criança aprende o que pode ou não fazer. Percebe que, ao chorar mais alto, a mamadeira vem mais depressa. Portanto, vale a pena ser manhosa, pelo menos de vez em quando. Quando joga um objeto no chão, é repreendida pela mãe e ganha uma bela bronca. Também começa a diferenciar sentimentos: o que achava ser dor, começa a receber nomes diferentes como: fome, ciúme, medo. As sinapses cerebrais são construídas a partir das relações externas. Sem interação com o outro, não há personalidade, afirma Benito Damasceno, neurologista e professor de neuropsicologia, da Unicamp.

Sem dúvida alguma, mais importantes dos nossos primeiros anos são os pais. Com eles, exercitamos uma das nossas grandes capacidades inatas: a de imitar. Os pais servem de referência para estabelecermos padrões de sentimentos e atitudes. O filho que imita o pai se barbeando, também conhece com ele jeitos de se relacionar com as mulheres, modos de regular o tom de voz e até preferências intelectuais.

Um estudo citado no livro Freaknomics, de Steven Levitt e Stephen Dubnere, realizado no ano de 1991 com 20 mil crianças americanas até a 5ª série, tentou relacionar o desempenho escolar das crianças com o perfil dos pais e a convivência de todos em casa. Descobriu que as boas notas não estão relacionadas àquilo que os pais fazem: se mandam os filhos lerem ou leem para eles antes de dormir, mas ao que eles são: se têm o hábito de ler para si próprios, se têm livros em casa e se são bem instruídos.

Nos primeiros anos, o filho se identifica com quem faz o papel de pais e passa muito tempo copiando suas ações, afirma Eloísa Lacerda, fonoaudióloga e psicanalista da PUC-SP especializada na 1ª infância. Talvez se explique assim o caso do filho que passa a infância apanhando e, quando adulto, vira um pai igualmente agressivo. A mesma teoria serviria também para explicar o contrário: o filho que, em alguns pontos, se torna o contrário dos pais. É que eles podem servir de referência de traços aos quais reagimos. Assim os psicólogos explicam a família do casal que passa as noites brigando e tem um filho do jeito oposto, tranquilo e pacificador.

 Vale a regra do: cada caso é um caso, que nem sempre é comprovada por estatísticas. Além disso, o convívio com os pais é só uma etapa do desenvolvimento. Em casa, a criança cria ferramentas que poderá desenvolver ou não quando passar por outro desafio: a busca para ganhar destaque entre seus iguais.

Mas se pensávamos que apenas os pais influenciam, as amizades influenciam muito mais do que imaginamos. Em 1998, a psicóloga americana Judith Rich Harris causou uma revolução nas teorias da personalidade ao afirmar que o convívio com os pais é só um dos fatores que influenciam a personalidade dos filhos, e um dos menos importantes. No livro Diga-me com Quem Anda..., ela fala que as relações horizontais, dos 6 aos 16 anos, da criança com seus pares, o  grupo de amigos da escola ou da vizinhança, são o grande definidor da personalidade adulta.

Com seu livro desmistificador, Judith Harris tranquiliza os pais quanto a seu real papel na formação dos filhos. Pois como milhares deles já podiam intuir por sua própria experiência, apesar de toda a pressão cultural na direção contrária, pais dedicados e atentos não garantem filhos felizes e seguros.


Disso tudo, concluo: Os pais devem fazer da melhor maneira a parte que lhes cabem em educar seus filhos, não deixando essa incumbência às escolas, alegando falta de tempo ou de paciência para lidarem com os filhos. Devem mostrar o certo e o errado, mas dando livre arbítrio para suas escolhas e consequências. Afinal, por mais que queiramos, os genes não restringem a liberdade humana. Eles a possibilitam. Por último, amor e atenção na dosagem certa. A overdose de amor sufoca. Atenção em demasia faz com que pais se esqueçam de que também precisam respirar e viver. 

Não sei até onde meus genes e o ambiente no qual criei meus filhos interferem em suas personalidades. Sei que fiz o melhor que eu tinha de mim. Penso que ainda faça desse jeito, mas que pode já não ser o jeito perfeito para eles, justamente porque fizeram suas escolhas.


A gente só deseja que sejam felizes,
mesmo que cada um tenha conceito diferenciado do que seja a Felicidade

(Foto: Gustavo Pinheiro)

As referências estão nas citações dos autores/Livros/Artigos.


Mamãe Coruja



3 comentários:

  1. Não tenho qualquer dúvida a este respeito.

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  2. Sempre foi o melhor.. De coração! A sra é minha referência para criação agora dos meus filhos..seus netos.

    Bjs.. Te amo.

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    1. Obrigada, filho amado e querido.
      Meus netos lindos da vovó.

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